A importância do tempo para o tradutor independente

This is an adapted version of my original article “La importancia del tiempo para un traductor independiente”, by Marina Tavares, freelance translator.

clessidra“Nemo aestimat tempus; utuntur illo laxius quasi gratuito.”
“Ninguém dá valor ao tempo; usam-no prodigamente, como se fosse oferecido de forma gratuita.”
(Séneca – Da Brevidade da Vida [De Brevitate Vitae])

O Tradutor Independente

Quem não conhece bem este tipo de trabalho costuma pensar que ser independente significa ter mais liberdade de ação, relativamente àquela que se pode ter quando se trabalho como empregado por conta de outrem. No fundo, julga que se pode trabalhar “quando” e “se” o decidirmos fazer.
Antes de mais, muitas pessoas ainda não têm uma noção clara do que é ser tradutor independente e o que é que se faz. Quando alguém me pergunta em que trabalho, respondo, simplesmente: “Sou tradutora” e a maioria das pessoas responde: “O que é? O que faz um tradutor? Como é que consegues trabalhar a partir de casa, sozinha, sem patrão?”. E outras questões do género. Muitas vezes, fico desmoralizada ao ouvir este tipo de perguntas, uma vez que tenho de estar sempre a repetir a mesma história.

Porque é que o tempo é essencial para um tradutor independente?

O nível de dificuldade inerente ao início da atividade como tradutor independente profissional depende da nossa própria experiência e da ajuda externa com que se possa contar. Mas isto é outra questão. Partindo do princípio de que a nossa profissão já está orientada, vamos concentrar-nos no TEMPO, o que nos conduz a outro termo fundamental: ORGANIZAÇÃO!
Se não prestarmos a devida atenção a esta pequena palavra mágica, posso assegurar-vos por experiência própria que o trabalho do tradutor independente transformar-se-á numa prisão! Trabalhar como independente não significa, de forma alguma, que não é necessário respeitar horários ou trabalho planificado. Pelo contrário, quanto mais nos afastamos de um trabalho tradicional, melhor devemos organizar o dia de trabalho e a vida pessoal. Senão, o primeiro risco que corremos é o de nos deixarmos absorver completamente pelo trabalho e dizer adeus ao resto da nossa vida.
É muito frequente, por vezes até mesmo justificado, que um tradutor independente no início de carreira acredite que o mais importante seja “trabalhar, trabalhar e trabalhar sem parar”. É verdade, escolhemos este tipo de trabalho para seguir a nossa paixão, a muitos de nós não agrada trabalhar com horários pré-fixados, nem é do nosso agrado depender de terceiros para fazer o nosso trabalho, deslocarmo-nos, todas as manhãs, para um escritório, etc. MAS é necessário estabelecer limites à já referida liberdade, pelo que é necessário começar a definir uma espécie de horário para abrir e fechar o nosso escritório em casa. Eu sei que é difícil desligar o computador às 18h, quando temos um trabalho quase terminado (só faltam 2 páginas para terminar!), mas é necessário respeitar essa regra.

Quando e quantas vezes é necessário verificar os emails recebidos?

É importante verificar regularmente o correio electrónico, uma vez que, em grande parte, o nosso trabalho depende dessas “mensagenzitas”. Se tivermos uma ligação ADSL, por norma, não há qualquer problema em verificar as mensagens com regularidade, pois, a maior parte das vezes, não é necessário estabelecer uma nova ligação sempre que se quer consultar o email e, além disso, é uma opção mais barata. Outra boa ideia, poderá ser instalar um sinal sonoro de notificação de correio que indique a recepção de novas mensagens. Dessa forma, não será necessário olhar para o símbolo de mensagens, que se encontra na parte inferior da barra de tarefas.
Naturalmente, como os clientes ou agências de tradução com quem um tradutor independente trabalha podem estar localizados em diferentes partes do mundo, temos de ter em conta a questão dos fusos horários: uma boa solução poderá ser definir uma mensagem de resposta automática, no programa de correio electrónico, que informe da ausência temporária, assegurando que responderemos o mais brevemente possível. Desta forma, se um cliente enviar uma mensagem enquanto estivermos a dormir à 1h da manhã, receberá sempre uma resposta, mesmo não sendo completamente pessoal!
Outra regra a respeitar é: NÃO TRABALHAR AO FIM-DE-SEMANA! É mais fácil dizer do que fazer! Apesar de, por vezes, ser mesmo necessário trabalhar ao domingo para terminar um trabalho urgente, pelo menos, evitaremos trabalhar na segunda de manhã, de forma a descansar um pouco e voltar a estabelecer o equilíbrio entre perdas e ganhos em termos de tempo.
No fundo, é necessário definir uma espécie de “orçamento de tempo” e distribuir o tempo dedicado à atividade profissional entre, por exemplo, autoaprendizagem (aprendizagem de novos programas informáticos, assistir a cursos, seminários linguísticos, etc.), dedicar algum tempo a fóruns profissionais e, um aspecto ainda mais importante, à promoção os nossos serviços. O restante tempo deverá ser dedicado à nossa vida privada e social e, se tudo correr bem, a uns dias de férias.
Ou seja, é necessário organizar o nosso próprio tempo como em qualquer outra actividade, em que haverá, por exemplo, períodos de trabalho mais intenso, durante os quais não será possível dedicar-se à promoção dos seus serviços, mas em que haverá também períodos com menos trabalho. Esses períodos não devem ser considerados como uma perda de tempo, nem como algo negativo, pelo contrário, é necessário aproveitar esse tempo livre para fazer o que não se consegue fazer quando “estamos a trabalhar”, como por exemplo, relações públicas, promoção dos nossos serviço, compilação de glossários, revisão das bases de dados das agências, etc.
Um aspecto importante desta planificação é fixar objectivos futuros: passar um exame específico para a Associação Linguística XX, adquirir novos clientes, melhorar a nossa página web, caso se tenha uma, ou, então, pensar que chegou a hora de criar uma, etc.

A parte administrativa do trabalho

Quando trabalhamos de forma independente, um aspecto importante a ter em consideração é a parte administrativa, ou seja, a facturação, definir trabalhos, etc. Ter este aspeto bem organizado, é um bom investimento. Pelo que será necessário definir um método de trabalho que defina todas as datas de entrega, as datas de vencimento, etc. No que respeita a esta operação de poupança de tempo, também é necessário elaborar e actualizar regularmente uma lista de perguntas frequentes, que contenha todos os problemas e soluções que se tenham enfrentado. Desta forma, poderemos evitar perder tempo a tentar resolver problemas que já foram resolvidos.
De uma forma geral, deveremos procurar tratar da facturação no final de cada mês, para, assim, agrupar vários trabalhos, tanto pequenos, como grandes. No entanto, nem sempre é possível realizar este sonho, pois as regras podem variar de cliente para cliente, de acordo com os seus requisitos: um poderá pedir que CADA TRABALHO seja facturado quando se entregar, outro no final de cada mês, um terceiro a meio do mês (sim, juro, já me aconteceu!), o cliente X quer que a factura seja emitida quando se atingir o valor XXX e assim por diante. E o que dizer daquelas grandes agências de tradução, com muitos Gestores de Projectos, em que cada um quer a sua própria facturação e APENAS para o trabalho pelo qual é responsável? Nestes casos, se, durante o mês de Julho, tivermos feito três trabalhos para três Gestores de Projecto diferente, teremos de emitir três facturas diferentes!
Okei, continua a querer trabalhar como tradutor independente? Assim sendo, vamos continuar.
Naturalmente, o melhor será implementar um modelo de factura padrão, ou mais de um. Por exemplo, um modelo para clientes internacionais e outro para clientes locais, personalizado com os dados de cada cliente (nome, morada, nome do Gestor de Projecto, etc.). Desta forma, não teremos de fazer uma nova factura sempre que a vamos emitir, sendo apenas necessário alterar os detalhes de cada trabalho.
Estando definido que a questão da facturação é importante, convém procurar simplificar esse processo, de forma a não nos esquecermos de nenhum trabalho. Para isso, é necessário registar todos os projectos do mês, divididos por cliente, de forma a conseguir encontrar todos os trabalhos feitos e incluí-los na respectiva factura. Nem todos os clientes enviam uma ordem de serviço oficial, pelo que será necessário enviar-lhes um modelo, que deverão preencher e devolver. É fundamental ter uma ordem de serviço, não só para definir o trabalho a fazer, mas, e mais importante ainda, como prova do trabalho requisitado pelo cliente. Portanto, não esquecer de pedir uma ordem de serviço!
Por vezes, tratar das facturas, das ordens de serviço, das bases de dados, etc, pode ser entediante. Não é um trabalho criativo, com certeza, mas é necessário. Para sermos profissionais, antes de mais, é necessário investir no nosso próprio tempo: cada tarefa “entediante” que se possa realizar já, representa, provavelmente, um recurso para melhorar as nossas próprias capacidades. Portanto, não nos devemos desmoralizar!

Muito obrigada, Maria Antonietta, por estes sábios conselhos! 🙂

(Original article: Marina Tavares’s blog)

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